quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O hipnotizador







O mundo (não todo, mas uma boa parte) vive hoje em estado de hipnose e o hipnotizador é Barack Obama. A hipnose consiste numa mudança radical de percepção sobre o que se passa no mundo sem que na realidade haja razões para sustentar tal mudança.

*Boaventura de Sousa Santos

A hipnose é um estado psíquico, induzido artificialmente, em que o hipnotizado, numa condição semelhante à de transe, fica altamente sujeito à influência do hipnotizador. O estado de concentração hipnótica filtra a informação de modo a que ela coincida com as diretivas recebidas. Estas, por sua vez, podem trazer à consciência do hipnotizado memórias por ele suprimidas. A hipnose pode conduzir a atos destrutivos para o próprio ou para outros e, passado o seu efeito, o contacto com a realidade pode ser penoso. O mundo (não todo, mas uma boa parte) vive hoje em estado de hipnose e o hipnotizador é Barack Obama (BO). A hipnose consiste numa mudança radical de percepção sobre o que se passa no mundo sem que na realidade haja razões para sustentar tal mudança. Em que consiste a mudança e donde provêm os poderes hipnóticos de Obama? O que se passará quando o estado de hipnose desvanecer?

A mudança de percepção ocorre em diferentes áreas. A crise financeira global. Mudança: as medidas corajosas de BO para regular o sistema financeiro e assumir o controle de empresas importantes fez com que a crise fosse ultrapassada e a economia retomasse o seu curso. Realidade: BO injectou montantes astronômicos de dinheiro dos contribuintes nos bancos e empresas à beira do colapso sem assumir o controle da sua gestão; não introduziu até agora nenhuma regulação no sistema financeiro; prova disso é o regresso do capitalismo de casino à Wall Street com o banco Goldman Sachs a registar lucros fabulosos obtidos através dos mesmos processos especulativos que levaram à crise, enquanto o desemprego continua a aumentar e os americanos continuam a perder as suas casas por não poderem pagar as hipotecas.

O regresso do multilateralismo. Mudança: BO cortou com o unilateralismo de Bush e os tratados internacionais voltaram a ser respeitados pelos EUA. Realidade: as recentes negociações de Bangkok, que deveriam levar ao reforço do frágil Protocolo de Kyoto sobre as mudanças climáticas, conduziram, por pressão dos EUA, ao resultado oposto com a agravante de terem atenuado as responsabilidades globais dos países desenvolvidos, os grandes responsáveis pela degradação ambiental; os EUA, que não assinaram a Declaração de Durban contra o racismo, auspiciada pela ONU em 2001, voltaram a retirar o seu apoio à declaração sobre a revisão da declaração de Durban elaborada na reunião da ONU de Abril passado em Genebra, arrastando consigo vários países europeus; os EUA desautorizaram o corajoso relatório do Juiz Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos por Israel e o Hamas durante a invasão israelense da faixa de Gaza no Inverno de 2008, e, juntamente com Israel, pressionaram a Autoridade Palestiniana a fazer o mesmo.

O fim das guerras. Mudança: BO estendeu a mão da fraternidade e do respeito ao mundo islâmico e vai pôr fim às guerras do Oriente Médio. Realidade: sem dúvida, houve mudança de retórica, mas Guantánamo ainda não encerrou; os generais dizem que a ocupação do Iraque continuará por muitos anos (ainda que os soldados sejam substituídos por mercenários); os pobres camponeses afegãos continuam a ser mortos “por engano” por bombardeiros covardemente não tripulados e as mortes estendem-se já ao Paquistão com consequências imprevisíveis; a burla da ameaça nuclear iraniana continua a ser propalada como verdade; no passado dia 10 de Setembro, BO renovou o estado de emergência, declarado inicialmente por Bush em 2001, sob o pretexto da continuada ameaça terrorista, atribuindo ao Estado poderes que suprimem direitos democráticos dos cidadãos.

As bases militares na Colômbia. Mudança: sem precedentes, BO criticou o golpe de Estado nas Honduras, o que dá garantias de que as sete bases militares a instalar na Colômbia são exclusivamente destinadas à luta contra a droga. Realidade: BO criticou o golpe mas não lhe pôs termo nem retirou o seu embaixador; o alcance dos aviões a estacionar na Colômbia revelam que os verdadeiros objetivos das bases são 1) mostrar ao Brasil que, como potencial regional, não pode rivalizar com o EUA, 2) controlar o acesso aos recursos naturais da região, nomeadamente da Amazônia, 3) dissuadir os governos progressistas da região a terem veleidades socialistas mesmo que democráticas.

Donde provém o poder hipnótico de BO? Da insidiosa presença do colonialismo na constituição político-cultural do mundo. O Presidente negro de tão importante país dá aos fautores históricos do racismo no mundo contemporâneo o conforto de poderem espiar sem esforço a sua culpa histórica, e dá às vítimas do racismo a ilusão credível de que o fim das suas humilhações está próximo.

E o que passará depois da hipnose? BO está preparando-se meticulosamente para governar durante oito anos, fará algumas reformas que melhorarão a vida dos americanos, ainda que ficando muito aquém das promessas (como no caso da reforma do sistema de saúde) e sem nunca pôr em causa a vigência do Estado de mercado; evitará a todo custo “mexer” no conflito Israel/Palestina; manterá a América Latina sob apertado controle; agradará em tudo a China, tal o medo que ela deixe de financiar o american way of life; deixará o Irã onde está e, se puder, sairá do Afeganistão; tudo isto num contexto de crescente declínio econômico dos EUA em parte camuflado pelo aumento das despesas militares algumas delas orientadas para o controlo de conflitos internos.

*Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

UM PRÊMIO NOBEL PARA EVO





Pela primeira vez em ambos os países um ou outro de sua etnia chega à Presidência.


Mais de uma vez chamei a atenção para o fato de que Obama era um homem inteligente, educado num sistema social e político no qual crê. Deseja estender os serviços de saúde a quase 50 milhões de norte-americanos, tirar a economia da profunda crise que padece e melhorar a imagem dos Estados Unidos, deteriorada pelas guerras criminosas e as torturas. Não imagina, nem deseja nem pode mudar o sistema político e econômico de seu país.

O Prêmio Nobel da Paz tem sido conferido a três Presidentes dos Estados Unidos, um ex-presidente e um candidato a Presidente.

O primeiro foi Theodore Roosevelt, eleito em 1901, dos Rough Riders (jóqueis duros), quem desembarcou em Cuba seus jóqueis, mas sem cavalos, no período da intervenção dos Estados Unidos em 1898 para impedir a independência de nossa Pátria.



O segundo foi Thomas Woodrow Wilson, que introduz os Estados Unidos na primeira guerra pela partilha do mundo. No Tratado de Versalhes impôs condições tão severas à vizinha Alemanha, que criou as bases para o nascimento do fascismo e o estalo da Segunda Guerra Mundial.


O terceiro é Barack Obama.


Carter foi o ex-presidente a quem vários anos depois de ter finalizado seu mandato lhe foi outorgado o Prêmio Nobel. Sem dúvidas, um dos poucos Presidentes desse país incapaz de ordenar o assassinato de um adversário, como fizeram outros; devolveu o Canal ao Panamá, criou o Escritório de Interesses em Havana, evitou cair em grandes déficits orçamentários e esbanjar o dinheiro em benefício do complexo militar industrial, como fez Reagan.


O candidato foi Al Gore, que tinha sido vice-presidente; o político norte-americano com maior conhecimento sobre as terríveis conseqüências da mudança climática. Mais para frente, quando foi eleito candidato à Presidência, foi vítima da fraude eleitoral e despojado da vitória, por W. Bush.


As opiniões sobre a entrega deste Prêmio têm sido muito divididas. Muitos partem de conceitos éticos ou refletem contradições evidentes na imprevista decisão.

Haveriam preferido esse Prêmio como fruto de uma tarefa realizada. Nem sempre o Prêmio Nobel da Paz foi entregue a pessoas merecedoras dessa distinção. Às vezes receberam-no pessoas ressentidas, auto-suficientes, ou pior ainda. Lech Walesa, ao conhecer a noticia exclamou com desprezo: “Quem, Obama? É muito rápido. Não tem tido o tempo suficiente para fazer alguma coisa”.


Em nossa imprensa e em CubaDebate, companheiros honestos e revolucionários foram críticos. Um deles salientou: “Na mesma semana em que foi outorgado o Prêmio Nobel da Paz a Obama, o Senado dos Estados Unidos aprovou o maior orçamento militar da história: 626 bilhões de dólares.” No Noticiário de Televisão, outro jornalista comentou: “O que fez Obama para merecer essa distinção?” Mais outros perguntaram: “E a guerra do Afeganistão e o incremento dos bombardeios?” São pontos de vista baseados nas realidades.


Desde Roma, o diretor de cinema Michael Moore pronunciou uma frase lapidária: “Para-bens, presidente Obama, pelo Prêmio Nobel da Paz; agora, por favor, ganhe-o”.


Estou certo de que Obama concorda com a frase de Moore. Possui suficiente inteligência para compreender as circunstâncias que rodeiam o caso. Sabe que ainda não o ganhou esse Prêmio. Esse dia, de manhã, declarou: “Acho que não mereço acompanhar tantas personalidades transformadoras homenageadas com este Prêmio”.


Afirma-se que são cinco os membros do famoso comitê que outorga o Prêmio Nobel da Paz. Um porta-voz asseverou que foi por unanimidade. Corresponde fazer uma pergunta? O galardoado foi ou não consultado? Uma decisão dessa índole pode ser tomada sem antes a pessoa premiada ter sido advertida disso? Este não pode ser julgado moralmente de igual forma se conhecia ou não com antecedência a indicação para o Prêmio. O mesmo pode ser afirmado a respeito daqueles que decidiram premia-lo.


Talvez seja necessário criar o Prêmio Nobel da Transparência.


Por outro lado ninguém mencionou o nome de Evo.


É obvio que pela primeira vez na história da Bolívia, um autêntico indígena aimara exerce a presidência desse Estado, criado pelo Libertador Simon Bolívar depois da Batalha de Ayacucho, quando o último vice-rei da Espanha foi vencido pelo General Antonio José de Sucre.


A Bolívia possuía, então, 2 milhões 343 mil 769 quilômetros quadrados.


A sua população era integrada fundamentalmente pelos descendentes da civilização aimara-quíchua, cujos conhecimentos em diversas esferas assombram o mundo. Mais de uma vez tinham-se sublevado contra seus opressores.

Os oligarcas fratricidas e pró-imperialistas dos Estados vizinhos, apesar dos vínculos comuns de sangue e cultura, arrebataram à Bolívia 1 milhão 247 mil 284 quilômetros quadrados, mais da metade da superfície. É bem conhecido que ao longo dos séculos, o ouro, a prata e outros recursos da Bolívia eram extraídos pelos privilegiados donos de sua economia. Enormes jazidas de cobre, as maiores do mundo, e outros minérios lhe foram arrebatados depois da independência em uma das guerras promovidas pelos imperialistas britânicos e ianques.


Apesar disso a Bolívia conta com importantes jazidas de gás e de petróleo e possui, além disso, as maiores reservas conhecidas de lítio, minério muito necessário em nossa época para a armazenagem e uso da energia.


Evo Morales, camponês indígena muito pobre, transitou pelos Andes, juntamente com seu pai, antes de completar seis anos, pastoreando lhamas de um grupo indígena. Conduziam-nas durante 15 dias até o mercado onde as vendiam para adquirir os alimentos da comunidade. Respondendo a uma pergunta minha sobre aquela singular experiência, Evo me contou que durante a viagem “hospedava-se no hotel mil estrelas”, uma bela forma de fazer referência ao céu limpo da cordilheira onde por vezes são colocados os telescópios.


Naqueles duros anos de sua infância, a alternativa dos camponeses na comunidade onde nasceu, era o corte da cana-de-açúcar na província argentina de Jujuy, na qual às vezes uma parte da comunidade refugiava-se durante a safra.


Não muito longe de La Higuera, onde o Che ferido e desarmado foi assassinado no dia 9 de outubro de 1957, Evo, que tinha nascido no dia 26 desse mesmo mês no ano 1959, ainda não completava os 8 anos. Aprendeu a ler e a escrever em espanhol, caminhando até uma escolinha pública a cinco quilômetros da choça onde num rústico quarto viviam seus irmãos e seus pais.


Durante sua azarenta infância, onde quer que houvesse um professor, ali estava Evo. De sua raça adquiriu três princípios éticos: não mentir, não roubar, não ser débil.


Aos 13 anos o pai autorizou-o para que se mudasse para San Pedro de Oruro e estudar o bacharelado. Um de seus biógrafos conta que era melhor em Geografia, História e Filosofia do que em Física e Matemáticas. O mais importante é que Evo para custear seus estudos, acordava às 02h00 para trabalhar como padeiro, construtor ou noutra atividade física. Freqüentava as aulas à tarde. Era admirado por seus companheiros os quais o ajudavam. Desde o primário aprendeu a tocar instrumentos de vento e foi trompete de uma prestigiosa banda de Oruro.


Ainda adolescente, organizou a equipe de futebol de sua comunidade, da qual foi o capitão.


O acesso à universidade não estava a seu alcance por ser indígena aimara e pobre.


Após ter concluído seu último ano de bacharelado, cumpriu o serviço militar e regressou a sua comunidade, localizada na altura da cordilheira. A pobreza e os desastres naturais obrigaram a sua família a emigrar para a zona subtropical de El Chapare, onde a mesma conseguiu obter um pequeno lote de terra. Seu pai morre em 1993 quando ele tinha 23 anos. Trabalhou duramente a terra, mas era um lutador nato, organizou todos os trabalhadores, criou sindicatos e com eles encheu vazios aos quais o Estado não prestava atenção.


As condições para uma revolução social na Bolívia foram criadas nos últimos 50 anos. No dia 9 de abril de 1952, antes do início de nossa luta armada, estalou a revolução nesse país com o Movimento Nacionalista Revolucionário de Victor Paz Estenssoro. Os mineiros revolucionários derrotaram as forças repressivas e o MNR tomou o poder.


Os objetivos revolucionários na Bolívia estavam longe de serem cumpridos. Em 1956, segundo as pessoas bem informadas, começou o declínio desse processo. Em 1 de janeiro de 1959 triunfa a Revolução em Cuba. Três anos depois, em janeiro de 1962, nossa Pátria foi expulsa da OEA. A Bolívia absteve-se. Mais tarde todos os governos, exceto o México, interromperam relações com Cuba.


As divisões do movimento revolucionário internacional fizeram-se sentir na Bolívia. Eram necessários ainda mais de 40 anos de bloqueio a Cuba, o neoliberalismo e suas desastrosas conseqüências, a Revolução Bolivariana na Venezuela e a ALBA; a Bolívia precisava de Evo e do MAS.


Seria longo sintetizar em poucas folhas sua rica história.


Apenas direi que Evo foi capaz de vencer terríveis e caluniosas campanhas do imperialismo, seus golpes de Estado e ingerência nos assuntos internos, defender a soberania da Bolívia e o direito de seu povo milenar a que sejam respeitadas seus costumes. “Coca não é cocaína”, disse ao maior produtor de maconha e o maior consumidor de drogas no mundo, cujo mercado tem sustentado o crime organizado que no México custa anualmente milhares de vidas. Os maiores produtores de drogas do planeta são dois dos países onde estão as tropas ianques e suas bases militares.


Na armadilha mortal do comércio de drogas não caem a Bolívia, a Venezuela e o Equador, países revolucionários que, igual que Cuba, são membros da ALBA, sabem o que podem e devem fazer para levar a saúde, a educação e o bem-estar a seus povos. Não precisam de tropas estrangeiras para combater o narcotráfico.


A Bolívia leva adiante um programa de sonho sob a direção de um Presidente aimara que conta com o apoio do povo.


Em menos de três anos erradicou o analfabetismo: 824 mil 101 bolivianos aprenderam a ler e a escrever; 24 mil 699 fizeram-no em aimara e 13 mil 599 em quíchua; é o terceiro país livre de analfabetismo, depois de Cuba e da Venezuela.


Presta atendimento medico gratuito a milhões de pessoas que jamais o tinham recebido; é um dos sete países do mundo que nos últimos cinco anos conseguiu reduzir mais a mortalidade infantil, com possibilidades de cumprir as Metas do Milênio antes de 2015, e em uma proporção similar às mortes maternas; operou da visão 454 mil 161 pessoas, delas 75 mil 974 brasileiros, argentinos, peruanos e paraguaios.


Na Bolívia foi estabelecido um ambicioso programa social: todas as crianças das escolas públicas da primeira à oitava série, recebem uma doação anual para sufragar o material escolar que beneficia a quase dois milhões de alunos.


Mais de 700 mil pessoas maiores de 60 anos recebem um bônus equivalente a 342 dólares anuais.


Todas as mulheres grávidas e as crianças menores de dois anos recebem uma ajuda de aproximadamente 257 dólares.


Na Bolívia, um dos três países mais pobres do hemisfério, o Estado controla os principais recursos energéticos e minerais do país, respeitando e compensando cada um dos interesses afetados. Marcha com cuidado porque não deseja retroceder um passo. Suas reservas em divisas vão crescendo. Evo dispõe de não menos de três vezes mais do que dispunha ao início de seu governo. É dos países que melhor fazem uso da cooperação externa e defende com firmeza o meio ambiente.


Em muito pouco tempo se conseguiu estabelecer o Padrão Eleitoral Biométrico e já estão registrados aproximadamente 4,8 milhões de eleitores, quase um milhão mais do que o último padrão eleitoral, que em janeiro de 2009 totalizava os 3,8 milhões.


Em 6 de dezembro serão as eleições. Com certeza o apoio do povo a seu Presidente aumentará. Nada tem podido deter seu crescente prestígio e popularidade.


Por que não lhe é conferido o Prêmio Nobel da Paz?


Entendo sua grande desvantagem: ele não é presidente dos Estados Unidos",













Fidel Castro Ruz

Outubro 15 de 2009

4h25

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Piada do ano! Nobel da Paz para Obama



Quem ainda acredita no prêmio Nobel como "justo", isento, tá esperando o Papai Noel... mas mesmo assim proponho uma enquete: O que Obama fez pela paz mundial (regional, local, sei lá)?

domingo, 4 de outubro de 2009

Patria Grande calada...

Hoje o dia amanheceu triste, já abatido da notícia que se aprontava pelos últimos dias.

Se foi Mercedes Sosa, a maior voz do nosso continente. Vá em paz!


Saudades...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Belém 2018, Olimpíadas de Inverno. Eu acredito!



Depois do Pan, Copa do Mundo e Olimpíadas, quem duvida que o Lula possa trazer mais essa pra gente?! As mudanças climáticas estão aí...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Todo dia é dia de ciclofaixa

Do excelente blog:


Um vídeo que explica para te confundir, te confundi para te esclarecer:

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pelos caminhos da revolução, capítulo 2

Santiago - Turquino: a estrada sem fim

Ah se eu fosse pra lá mesmo...

Não sei como acordei na hora, e sem poder me despedir da família da casa que me hospedara (estavam todos dormindo), saí com os equipamentos até a quadra seguinte, onde dormia a Cabocla Jarina, pois a casa que estava era uma hospedaria clandestina, assim, para não chamar atenção, ela ficava numa outra hospedaria.

Perdi o meu ciclocomputador (que marca a velocidade, distância etc.) ainda em Havana, caído pelo caminho não sei como... Então, o desafio seria acompanhar o mapa sem o respaldo do odômetro para certificar-me das distâncias percorridas.

Para piorar a navegação, aqueles que já viajaram de bicicleta sabem o quão difícil é obter informações precisas a respeito de distâncias e relevo, pois para os veículos automotivos, quilômetros a mais ou a menos, até mesmo subidas longas, não modificam muito o planejamento de viagem, já para um ciclista fazem toda a diferença. Assim, cada um me dizia uma coisa, acabou que confiei em um ex-caminhoneiro que me disse que havia uma subida grande e somente 70km até um dado ponto, a despeito do que indicava o mapa.

O lesão aqui foi na dele... rsrsrs



O meu objetivo era alcançar ao final do dia um suposto acampamento próximo ao Pico Turquino, ponto mais alto de Cuba. Por essa rota passaria por Uvero, palco de uma batalha histórica da guerrilha, descrita pelo Comandante Che Guevara como tendo marcado a maior idade do exército revolucionário.

O acampamento ficaria próximo à cidade de Chivirico, na entrada de uma estrada que rumaria ao pico. Com isso em mente, parti pelo caminho mais lindo que já trilhei na vida. Após subir um ladeira longa (~5km) e chegar ao município de Guamá (sim, Guamá como o meu bairro em Belém).



A estrada tinha como paisagem o mar do Caribe à esquerda e a Serra Maestra à direita. Indescritível. De um lado, incontáveis praias de fazer inveja até a Fernando de Noronha e, do outro, serras cobertas de floresta tropical delineando as nuvens e o horizonte...

Praias sem nome...

Xiiiiiiiiiiiii, furou a câmara traseira. Tudo bem, o descanso da parada para o remendo foi revigorante.

Mas na vida real da pedalada, sob um sol já escaldante, pois se aproximava do meio-dia quando cheguei à Chivirico, descobri que o suposto acampamento ficava em “Las Mulas”, cerca de mais 70km adiante!

Bem, aí complicou...

Pontes do rio que (a ponte) cai!

O pico do sol na ilha, tenho impressão (na pele!), era entre 13h e 14h. Nesse momento adquiri o famoso uniforme de ciclista, devido às marcas de bronzeamento da manga e da bermuda, perfeitamente delineadas pelo sol. Parei em Chivirico para almoçar. Triste vida a de um vegetariano viajante em Cuba, pois fora o pão com queijo (frio...), o iogurte de soja da lanchonete estava estragado. Uma dieta nada recomendável para tanto esforço físico.

O clima parece mais agradável na foto! rsrsrs

Às 15h o sol de frente continuava a toda (só escurece no verão ás 20h), não me segurei e pulei uma cerca às margens da estrada para roubar uma suculenta manga que me chamara. Ali mesmo, à sombra, tirei um cochilo.

Por volta das 17h cheguei em Uvero, local da vitoriosa batalha onde o exército revolucionário atingiu a sua maioridade, bom sinal para continuar pedalando forte, pois “Las Mulas” fica próximo. Posso dizer que 12h depois de sair de Santiago, cheguei ao bendito acampamento. Ufa! Não é todo dia que pedalo 140km (uma perna de Ironman!) com 16kg de carga...

Quase lá...

Após vencer a etapa de explicações sobre a viagem solo de bike, o que ocorre em todo o lugar que se chega nessas condições, a recepcionista do acampamento me vem com uma de que não há vagas! Hahahaha Não era um “acampamento”, só no nome, que em Cuba significa uma espécie de hospedaria com chalés, mais acessível.

Insisti para armar somente a minha rede... nada. Daí comecei a argumentar mais e descobri que havia dois tipos de quartos, uns mais simples e baratos e outros melhores e mais caros, sendo que o último tipo era o único que estrangeiros poderiam hospedar-se. É claro que após essa explicação convenci a recepcionista de hospedar-me em um dos mais simples.

Pois bem, não sou de reclamar de lugar algum, já dormi em tudo que foi canto, mas tenho que dizer: pra que fui ficar naquele quarto? Antes ter dormido em baixo de uma árvore... Era um forno, as paredes, piso, teto, cama, tudo emanava calor acumulado durante a tarde, uma construção irracional, nem o ventilador direto resolvia, a temperatura ficava fácil acima dos 40ºC.

Na janta conheci quatro ingleses que estavam viajando a ilha de bike também. Combinamos de fazer mergulho livre na manhã seguinte.

Durante esse mergulho, a minha suposta câmera à prova d’água (3m) e de choque (1,5m)... entrou água! Isso é uma das piores perdas de equipamentos que podem ocorrer em uma viagem como essa, afinal, onde eu conseguiria uma câmera digital em Cuba? E a que preço? Resposta: não conseguiria.

Última foto da câmera.

A partir desse ponto todas as minhas fotos foram tiradas na câmera de alguém que conheci no caminho, até eu conseguir comprar um tipo de câmera descartável, mas isso é história para os próximos capítulos.