sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Especial: homenagem a uma guerreira paraense, Zélia Amador


Em homenagem ao aniversário dessa grande guerreira paraense, o www.raoni.info produziu esta reportagem sobre a fascinante trajetória de vida da professora, atriz, diretora, militante, esposa, mãe, conselheira, doutoranda... Zélia Amador. Meus parabéns!

Primeiros passos

Zélia Amador de Deus, nasceu em 24 de outubro de 1951, na cidade de Soure na ilha do Marajó, estado do Pará. Filha de Doralice Amador, ainda criança mudou-se para a capital, Belém, morando e sendo criada pelos avós Francisca e Manoel de Deus. Possui um irmão por parte de mãe, Carlos Amador.

Desde muito nova, já administrava e ajudava o apertado orçamento familiar. Moravam numa casa no bairro da Sacramenta, onde iniciou sua atuação no movimento de paróquia e no teatro.

Sempre batalhou para conseguir estudar, tendo trabalhado desde cedo para conseguir ao menos o dinheiro do ônibus para ir à escola. Segundo palavras dela própria: "Eu fazia de um tudo para arranjar o dinheiro do ônibus, se não eu ia a pé".

Nessa luta diária para conseguir estudar, Zélia constituiu um currículo considerável, antes mesmo de terminar a escola normal. Como a personagem de Fernanda Montenegro no filme Central do Brasil, escrevia e lia cartas para a vizinhança. Cozinhava para uma vizinha em troca do dinheiro da passagem. Sempre se sobressaiu nos estudos, principalmente em matemática, disciplina que dava aulas particulares e se destacou no "Campeonato Colegial Guara Suco", famoso concurso televisivo da época, representando a antiga Escola Normal do Pará, o atual Instituto de Educação do Pará (IEP).

Entrou para o IEP em 1962, dividindo estudo, trabalho, teatro e atuação social. Participava do movimento da Paróquia de São Sebastião que tinha a frente o padre holandês, progressista, João Beukbon. Lecionava alfabetização para adultos. Iniciou sua trajetória nas artes confeccionando contestadores presépios de papel machê e escreveu, dirigiu e atuou as suas primeiras peças teatrais no Centro Social Auxilium, também na Sacramenta. Muito esforçada nos estudos e desempenhando uma série de outras atividades, como a própria Zélia coloca: "Eu era muito CDF até 68!".

68, o ano das transformações

Já com um histórico de atuação social muito forte, no IEP Zélia inicia sua militância no movimento estudantil secundarista. Participa das históricas passeatas de maio de 68 nas ruas de Belém e do Mundo, exigindo liberdade contra o regime ditatorial instalado no Brasil, assim como das manifestações contra o assassinato do estudante secundarista paraense, Edson Luís, no restaurante universitário "Calabouço" no Rio de Janeiro. Com colegas do Colégio Estadual Paes de Carvalho (CEPC), do Colégio Moderno e do Colégio do Carmo funda a Frente de Ação Secundarista do Pará (FASPA). Nesse período a União dos Estudantes de Curso Secundário do Pará (UECSP) estava sob intervenção da ditadura e os espaços de militância estudantil eram cada vez mais escassos, até que em dezembro do mesmo ano o ditador Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº. 5 (AI-5), suspendendo a possibilidade de qualquer reunião de cunho político, e a FASPA, como todos os demais movimentos sociais da época, foi posta na clandestinidade do dia para a noite. Zélia, entre outros militantes da FASPA, foram recrutados para a Ação Popular (AP), onde continuaram suas ações de luta pela liberdade, fazendo ecoar a palavra de ordem de resistência, também por estas bandas: "Abaixo a Ditadura!".

Em 1970 passa no concurso para professora da rede estadual de educação e começa a lecionar para turmas de 1ª à 4ª série na Escola Salesiana do Trabalho. Em 1971 inicia o curso de Letras na Universidade Federal do Pará (UFPA). Nesse período Zélia nos relata: "Eu fiquei na Universidade no pior período, de 71 à 74, tu tinhas um professor depois não tinhas mais, havia sido cassado...". Inicia também na Escola de Teatro da UFPA, completando um cronograma de atividades impressionante, trabalhando pela manhã, estudando Letras à tarde e Teatro à noite. Período marcante da sua vida, no qual conhece seu marido, o médico Anselmo Bentes.

Cena Aberta

Zélia possui uma destacada atuação teatral, reconhecida inclusive com o Troféu Máscara de Ouro, em 1973, da Escola de Teatro da UFPA. A peça de final de curso, uma adaptação da obra do teatrólogo Joaquim Cardozo, O Coronel de Macambira fora censurada. Período difícil para a produção e manifestação artística e cultural no Brasil, Zélia nos relata sobre a dificuldade de encenar peças durante a ditadura: "Você mandava para a censura, esperava de 45 dias até 2 meses, normalmente voltava picotado, tinha que mudar absolutamente tudo, além da censura do espetáculo, onde era realizado uma apresentação a portas fechadas para os censores, outra trabalheira para recriar os ganchos".

Em 1975, junto com Walter Bandeira, Margaret Refkalefsky, entre outros, monta o "Grupação". Companhia teatral que precedeu o grupo "Cena Aberta", que fez história no teatro paraense nas décadas de 70 e 80. Sobre isso Zélia nos conta: "A gente usava a metáfora artística para reagir ao regime militar".

O Cena Aberta era composto pelos membros do antigo Grupação, por Luiz Otávio Barata (um dos grandes criadores do grupo), Karine Jansen, Ernani Chaves, Wlad Lima e muitos outros. O grupo marcou a ativa cena teatral paraense, com teatro de rua, reaproveitamento de materiais para cenários e temas transgressivos.

Entre as montagens que marcaram época, há Quarto de Empregada de 1976, adaptação da peça do teatrólogo Roberto Freire, encenada e assistida no palco do Theatro da Paz, segundo Zélia, o objetivo de por a platéia no palco junto com o elenco e o cenário era para que sentissem o aperto dos "quartos de empregada".

Em 1984, após alguns anos afastada dos palcos Zélia volta à cena dirigindo Theastai Theatron, uma montagem de autoria coletiva do grupo "Cena Aberta", marcada pelas expressões corporais e pouco diálogo. Zélia nos conta: "Foi um choque com a censura, porque os atores começavam o espetáculo todos nus, então após algumas apresentações censuradas, tivemos que usar tapas-sexo, e em resposta a censura recriamos a peça com o nome Tronthea Staithea, praticamente a mesma peça com o nome invertido para enganar os censores".

Zélia também é uma das idealizadoras do Auto do Círio, patrimônio cultural paraense, no qual atua desde as primeiras edições.

Família

Como se não bastassem tantas atividades simultâneas, Anselmo nos relata como foi quando começaram a morar juntos: " Ela é uma pessoa muito humana, podendo ter seguido outros caminhos, me aceitou com as crianças numa fase muito difícil da vida, com pouco dinheiro, eu tinha que dar plantão e voltava cansado, não tinha como cuidar sozinho dos filhos e ela me ajudou a criá-los, mesmo tendo que trabalhar também". Zélia criou seus filhos e de Anselmo desde cedo, Petia então com 10 anos, Dauana que tinha 8 e Clarissa com 6, hoje adultos formados e trabalhando. Clarissa, sua filha caçula nos declara: "A pessoa mais solidaria que eu já conheci na vida, sempre nos tratou como seus próprios filhos, nunca a vimos de outra forma se não como mãe, nós três temos muito mais ligação com ela do que um cordão umbilical, é como se tivéssemos saído da barriga dela, ela é, sem dúvida, uma estrela que veio para brilhar".

Com mais de 20 anos de relacionamento, Anselmo e Zélia casaram-se no civil em 2005, numa festa para todas as tribos, como costuma ser sempre a comemoração de seus aniversários. Hoje os dois curtem os netos Pedrão e Caio.


Movimento negro

Em meados da década de 80, com o início do processo de reabertura política do país, Zélia foi uma militante presente em vários momentos históricos do movimento social no estado, sendo fundadora: da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH, onde é conselheira); do Partido dos Trabalhadores no Pará (PT); da Central Única dos Trabalhadores no Pará (CUT); da Associação de Docentes da UFPA (ADUFPA, tendo sido Vice-presidenta Regional Norte da Associação Nacional dos Docentes); e do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA), onde é uma das principais referências. Ela nos conta que desde cedo era fã do movimento Panteras Negras dos Estados Unidos, de autores como Agostinho Neto, Amílcar Cabral entre outros.

Sempre atuando em diversas frentes, Zélia passou a se dedicar mais ao movimento negro e explica: "Tem coisas que os brancos podem fazer, no movimento negro eu não podia me eximir, larguei o movimento dos docentes, pois a minha prioridade sempre foi o movimento negro, nunca tive dúvida".

Nas palavras de Nilma Bentes, autora do livro Negritando e coordenadora do CEDENPA: "A Zélia é uma referência do movimento negro do norte do país, ela tem uma facilidade de articulação incrível, consegue engolir muita coisa que eu não consigo. No CEDENPA ela é uma espécie de contra-ponto a mim, sem ela seria difícil, ela é um esteio do movimento. Além de ser referência também no teatro. Do ponto de vista particular ela é uma caixinha preta!"

A sua militância no movimento negro é reconhecida em todo o país e registra vários feitos, basta pesquisar o sítio eletrônico de buscas Google, para encontrar mais de 60.000 páginas que referenciam seu nome. Entre muitas conquistas, participou da elaboração do programa de ações afirmativas da UFPA, da redação no manifesto pró-estatuto de igualdade racial, foi delegada da Conferência Mundial contra o Racismo e palestrante de um sem-número de eventos das mais variadas áreas em todo o Brasil e no exterior.

Zélia nos ensina que: " Os brancos brasileiros não têm experiência de racismo, ficam acomodados na sua 'não-racialidade', os negros e os indígenas que são vítimas de racismo". Sobre as ações afirmativas defende que: "Se os negros e indígenas precisam de ações afirmativas, alguém está tendo privilégios com isso, se alguém está tendo prejuízo o outro lado está lucrando, os brancos".

Excepcionalidade acadêmica

A professora Zélia Amador, começou lecionando disciplinas eletivas no Serviço de Teatro da UFPA, ligado ao então Centro de Letras e Artes (CLA), nomenclatura adotada após a reforma universitária da época. Quando houve concurso público para docentes no início da década de 80 foi aprovada. Desempenhou o cargo de Direção do CLA e foi eleita Vice-Reitora da UFPA, fazendo valer o título de magnífica! Sobre o histórico, seu marido Anselmo nos fala: "preta, pobre, baixinha, do PT, chegar a Vice-Reitora, com esse desempenho internacional é algo especial".

Mestre em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atualmente Zélia está concluindo seu curso de doutorado em Ciências Sociais pela UFPA, escrevendo sua tese em políticas afirmativas para negros no Brasil.

Sem dúvida uma trajetória de vida impressionante e digna de admiração.

Agradecimentos

Enquanto fã incondicional da "tia Zélia" (minha companheira de signo, como nos chamamos), fico muito feliz de lhe fazer essa singela homenagem e aproveito para agradecê-la por todos os momentos felizes que me proporcionou com a sua companhia irradiante, sempre linda com seus panos e tranças. Para mim um exemplo de vida que tenho como referencial. Gostaria de agradecer as contribuições à reportagem, especialmente ao tio Anselmo, minha querida Clarissa e companheira de lutas Nilma que permitiram a publicação de suas declarações.

Parabéns tia Zélia!

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