terça-feira, 14 de julho de 2009

Costa Rica: sabe onde fica?

Cachoeira La Fortuna no Parque Nacional Vulcão Arenal.


A Costa Rica é um pequeno país da América Central, mas um gigante em belezas naturais, além de muitas particularidades.

O pouco tempo que me sobra livre do curso que estou fazendo (a quem se interessar: XXVII Curso Interdisciplinario en Derechos Humanos) tento conhecer o máximo possível da sua capital San José e, também, consegui visitar o principal ponto turístico do país, o parque nacional do vulcão Arenal.

Jamais estive em um vulcão antes, e essa vez não me satisfez, terei de conhecer outros!

Relato aqui algumas impressões desses dois universos costarriquenhos.

San José

Para mim, a coisa mais impressionante da Costa Rica não são seus vulcões, suas festas, nada disso, mas um simples fato, não há endereços... não, não é que não exista nada, é que não se utilizam endereços, mas sim referências. Para terem uma idéia, as casas não tem número!

Isso não é um relato exagerado de um estrangeiro perdido, ao contrário, até que me encontro fácil aqui, mas não deixa de ser divertido. Para quem duvida (e compreenda espanhol), vejam este vídeo abaixo, "Las Direcciones de Costa Rica":



Então como fazem? Bem...rsrsrs essa é a parte engraçada, pode não fazer rir ao ler, mas quando um se encontra perdidinho da silva e pede informações é que são elas! Aqui se utiliza referências das mais diversas possíveis, comerciais, naturais, existentes ou não.

Por exemplo, endereço da UNICEF em San José, veja bem, é um organismo da ONU!!!

Em uma lista de endereços:
Ezcazú, San Rafael, 200 Sur, 25 Este Pizza Hut.
(Traduzindo, Ezcazú é um distrito de San José, San Rafael um bairro e desde aí 200 metros ao sul e e 25 metros ao leste da Pizza Hut(???).

Para as mentes mais incrédulas, verifiquem na Wikipédia: Direcciones a la tica.

No verbete, em español, se exemplifica as situações mais conhecidas. Como o "a antiga figueira" ou em espanhol "antiguo higuerón", se trata de uma árvore que já foi retirada há anos, mas ainda permanece como referência, chegaram até a plantar uma nva figueira para manter a tradição.

Bancos falidos ("antiguo Banco Anglo"), casas de personagens folclóricos, como o endereço oficial do Ministério do Ambiente e Energia:

De la Casa Matute Gómez, 100 E(ste), 50 Sur, contiguo a CANARA en calle privada.
(Traduzindo, da "Casa Matute Gómez", 100 metros ao leste, 50 ao sul, ao lado da CANARA, em rua privada.)

Mas para mim o pior é o conceito "para cima" (hacia arriba) "para baixo" (hacia abajo). Não se trata de pegadinhas de "portuñol" não, é que "para cima" significa nessa situação, aproximar-se do centro da cidade, e vice-versa. Parece fácil, né?! Então sigam as intruções para chegar do Museo Nacional da Costa Rica (Cuartel Bellavista) até à Catedral é "para cima", apesar de ser uma ladeira para baixo!

As ruas são numeradas, mas não há placas de identificação praticamente, e ninguém sabe seus números, então imaginem euzinho aqui, nos primeiros dias, de bicicleta, perdido pela cidade, parando para pedir informações... ninguém, ninguém lhe dá a mesma informação, em quem acreditar?!

Lugar para sair? "El Cuartel de la Boca del Monte", boa música (aos domingos) e muita festa (às segundas-feiras). Entrada entre C$ 3.000,00 e C$ 4.000,00 (12 e 16 reais, mas vale pela música e pela "onda"). Endereço? "Diagonal al Cine Magaly, Barrio La California" (traduzindo, na diagonal do Cinema Magaly...).

Perder-se em San José, com certeza, faz parte dessa experiência chamada Costa Rica, ou la tica, gentílico coloquial, carinhoso ao referir-se a essa bela terra.

Vulcão Arenal

O vilarejo mais próximo à entrada do Parque Nacional se chama La Fortuna de San Carlos, não confundir com a cidade San Carlos (distante cerca de 60km). Uma cidade eminentemente turística, o que se percebe logo ao chegar, devido a enorme quantidade de placas de anúncios de "cabinas" (quartos de pousadas, passeios, hotéis e tudo mais. Fora a invasão turística gringa permanente no país.

Investigando o lugar pela internet, depois de muitas indicações, percebi que é difícil ver o vulcão em si, devido ao clima, quase que permanentemente nublado. Então fui mais pelos atrativos secundários, mas não menos interessantes. Há cachoeiras ("catarata La Fortuna" e "catarata de los Pobres"), rio de águas termais ("Tabacón"), observação de animais silvestres (muitos!), percursos de arborismo, principalmente tirolesa ("canopy", lá), pontes suspensas("puentes colgantes"), enfim...

A história do lugar é bem interessante, até 1968 era um povoado pequeno, ao lado do "monte" Arenal, até que, adivinhem... booooommmmm!!!! Isso mesmo, até que entrou em erupção e revelou-se o vulcão Arenal, mas aí já era tarde e o antigo povoado está até hoje debaixo de um lago...

O vulcão continua ativo, sendo a observação de suas lavas e pedras incandescentes o principal atrativo do lugar.

Pois bem, só me liberei do curso, sábado a tarde, quando já não havia mais ônibus diretos, daí peguei um para San Carlos e, de lá para La Fortuna, com a cabocla Jarina no bagageiro. Na ida me cobraram a bike, como era a última vaga do bonde, paguei para não esperar mais uma hora. C$ 1.000,00 (ou 4 reais de extorsão).

O caminho, passando pelas montanhas vestidas de selva tropical, sobre as nuvens é lindo!

Visão da estrada para San Carlos.


Como de costume, fiz amizades, em San Carlos mesmo um grupo de ciclistas de cross, que descansavam na praça me indicaram o albergue "El Gringo Petes" em La Fortuna, como o mais barato (US$ 5,00 a diária), realmente é a dica do lugar para quem não for acampar (há um camping ao lado). O amig do ônibus me mostrou onde era (claro que não sabia o endereço!). Porém não havia vaga para uma rede num sábado a noite de julho, daí pedalei até a esquina e descolei uma cabina na "Adriana" por US$ 8,00 a diária, recomendada somente aos corações mais fortes, se é que me entendem...rsrsrs. É difícil conseguir ser hospedado na casa de alguém, pois o vilarejo vive em função do turismo.

Não se podia ver nem lava nem pedras pois o clima estava nublado e a cratera do vulcão escondida pelas nuvens, como ficaria nos próximos dias...

Como cheguei tarde da noite, saí para buscar informações mais práticas, leia-se: hippies! hehehe

Tentativa número um. Os primeiros hippies me falaram de uma boate, mas começava mais tarde e me indicaram um bar, daí tinha um cara com o carro no prego, estavam empurrando e me disseram que ele me "levava", o carro pegou, entrei. No caminho o cara era estranho, me ofereceu drogas e quando chegamos ao bar, pertíssimo de onde estava, falei obrigado, e ele disse "son mil collones", perguntei que porra era aquela, e ele me disse que trabalha pirateando (táxis ilegais), fiz uma cagada, disse que não era gringo e que não pagaria porque não pedi. Ali, saltei, o bar? Uma porcaria.

Tentativa número dois. Havia esses malucos mangueando na frente de um bar de gringos, parei para olhar o trampo deles, bacana, puxei papo, era um argentino e um casal de argentino e venezuelana e seu cachorro. Tinham passado anos no Brasil, o primeiro inclusive conhecia Belém muito bem, e ali encontrei a fonte de informações prátas que queria, além de amizades.

Me falaram da "Cachoeira dos Pobres", em detrimento da principal que se paga para entrar, das pontes suspensas e do rio de águas termais que não se paga para banhar-se, pois o lugar é cheio de piscinas de águas termais em hotéis, caras para entrar.

Mas o melhor foram as dicas de viagem em outros lugares que me passaram.

O casal vive em uma furgãozinha chamada "La Maluca", com armário, cama e todos os tipos de gambiarras que se pode imaginar.

La Maluca e seus moradores.

Pela manhã, após uma noite ao som das caminhadas de ratos no forro, desci do quarto para buscar a Cabocla Jarina, que havia dormio abaixo ao lado de suas irmãs.

Albergue da Adriana.

Não segui o conselho dos hippies e fui à cachoeira principal pela promessa dos seus 70 metros de altura e somente 4km do centro. Pois bem, nem uma coisa nem outra, primeiro que esses "4km" eram quase 90º para cima, sério! Os pneus mistos da Jarina giravam em falso... Uma hora e meia depois de continuar com a força de pensar na volta, chego à entrada. No caminho passaram diversos passeios de gringos, de tudo, cavalo, quadriciclo motorizado, van, ônibus, táxi, pirata, carro alugado e até bikes... (aliás se aluga mountain bikes boas a partir de US$ 1,00 a hora em La Fortuna).

Respirei, tomei água, enfrentei uma fila de gringos para o guichê, quando não mais que de repente, N-O-V-E (sim, nove!), nove ponto cinco dólares para entrar!!! Pô, é "só" uma cachoeira! Me senti o mais turista dos turistas gringos do mundo. Após me recuperar do choque, parei, observei, daí chegou uma excurssão escolar de adivinhem? Sim, gringos, e fizeram uma fila enorme para pegar aquelas famigeradas pulseirinhas: "paguei um absurdo para estar aqui". Os funcionários do parque ficaram bastante ocupados com eles. Olhei, não havia câmeras, a caixa de pulseiras dando sopa... entrei!

Escadas e pontes sem fim até chegar aquela maravilha, mas não, não tem 70 metros nem aqui e nem na Costa Rica! Mas é linda, no meio da mata preservada, sem nada de concreto por perto, cai num poço de água azul e segue por uma corredeirazinha. Dá para nadar pois a água é justa, nem fria nem quente.



Fiquei um par de horas boiando e praticando a observação de gringos em contato com a natureza...rsrsrs

Então, a esperada descida! A Cabocla Jarina me olhou como quem diz: "eu não sou uma mountain bike, não me quebres, por favor!". Fiquei com peninha dela, e peguei leve. Mas a gravidade não... e aí se foi uma borracha do freio traseiro... digamos que acrescentou bastante adrenalina na descida! hehehehe

De volta ao centro almocei no "La Parada" na pracinha central, que mais parecia um refeitório escolar dos EUA.

Daí, sem pausas, peguei a estrada que margeia o vulcão. E tome-lhe subida, 23km, duas horas de subidas e, de novo, tirando forças para a volta. Tive que transferir uma borracha do freio dianteiro para o traseiro, pois só gosto de voar bem alto... isso me deixou em uma situação complicada, pois chuvia volta e meia e a estrada estava molhada, por tanto, sem o dianterio, o esquema era sorte e sola (do tênis mesmo!). Isso me fez não ir até as pontes suspensas, pois seria uma subida mais íngreme. Fiquei no rio de águas termais, "Tabacón". Gostei pois era uma parada popular, em contrastes com os "resorts" da estrada, a galera desce por caminhos improvisados em baixo da galeria que o rio cruza a estrada.

Misto de prazer e dor. Me explico. Esqueci o bloqueador solar em San José e não comprei um lá porque estava tudo nublado, mas com a altitude, a exposição solaré maior, e quinze minutos de sol na estrada me deixaram marcas nos braços e costas descobertos pela camiseta regata.

Então, águas termais mais queimaduras de sol... bem, digamos que foi bom até a cintura!

Rio de águas termais "Tabacón", detalhe da fumaça saindo das suas águas quentes.

Na volta, praticamente só descidas, deu pra curtir mais a paisagem, vários animais cruzando a estrada e nas árvores preguiças, macaquinhos, pássaros, gambás e tamanduás. A emoção, mais uma vez ficou por conta da Jarina, que com só com freio traseiro "gambiarriado" me presenteou com máxima de 62km/h, na chuva... o que fez com que as 2h de ida virassem 30min de volta!

Uma simpática vendinha de tecidos tradicionais, chamou minha atenção em especial:

Lindos panos à beira da estrada.

E a combinação estrada mais animais silvestres resulta em:

Gambá atropelado no Parque Nacional Vulcão Arenal.

Voltei na madrugada seguinte por San Ramón (mais perto). No ônibus de San Ramón para San José o motora me cobrou pela bike, de novo não! A confusão ficou para um dos terminais de San José... não, não há um terminal de ônibus, tem um monte espalhado pela cidade, o Caribeñas, Atlantico Norte (o da ida), Coca-cola etc. Como saí corrido desse da volta, não descobri o nome. Me explico. Disse que não pagaria a mais pela bike, daí vem segurança, gerente, enfim. Não paguei! E ainda xinguei o motora que, junto com os outros funcionários me ridicularizaram para compensar a sua frustrada tentativa de extorsão. Foi depois do "hijo de puta" que ele sai do ônibus com um cacete, perguntando: "Quien es puta acá?". Bem, pensei no enorme cadeado de ferro da Jarina (que estava preso...), lembrei do segurança armado, e foi nessa hora que sai correndo, ou melhor, pedalando! hehehe

Sem saber onde estava e ignorando o mapa, pois ninguém saberia me informar onde estava mesmo, segui as direções guiado pelo sol (sem sacanagem!) e cheguei ao instituto, atrasado para a aula.

Saldo do fim de semana no principal ponto turístico da Costa Rica, R$ 60,00, uma borracha de freio a menos, fotos e vídeos legais a mais e muita história para contar!

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