terça-feira, 29 de setembro de 2009

Pelos caminhos da revolução, capítulo 2

Santiago - Turquino: a estrada sem fim

Ah se eu fosse pra lá mesmo...

Não sei como acordei na hora, e sem poder me despedir da família da casa que me hospedara (estavam todos dormindo), saí com os equipamentos até a quadra seguinte, onde dormia a Cabocla Jarina, pois a casa que estava era uma hospedaria clandestina, assim, para não chamar atenção, ela ficava numa outra hospedaria.

Perdi o meu ciclocomputador (que marca a velocidade, distância etc.) ainda em Havana, caído pelo caminho não sei como... Então, o desafio seria acompanhar o mapa sem o respaldo do odômetro para certificar-me das distâncias percorridas.

Para piorar a navegação, aqueles que já viajaram de bicicleta sabem o quão difícil é obter informações precisas a respeito de distâncias e relevo, pois para os veículos automotivos, quilômetros a mais ou a menos, até mesmo subidas longas, não modificam muito o planejamento de viagem, já para um ciclista fazem toda a diferença. Assim, cada um me dizia uma coisa, acabou que confiei em um ex-caminhoneiro que me disse que havia uma subida grande e somente 70km até um dado ponto, a despeito do que indicava o mapa.

O lesão aqui foi na dele... rsrsrs



O meu objetivo era alcançar ao final do dia um suposto acampamento próximo ao Pico Turquino, ponto mais alto de Cuba. Por essa rota passaria por Uvero, palco de uma batalha histórica da guerrilha, descrita pelo Comandante Che Guevara como tendo marcado a maior idade do exército revolucionário.

O acampamento ficaria próximo à cidade de Chivirico, na entrada de uma estrada que rumaria ao pico. Com isso em mente, parti pelo caminho mais lindo que já trilhei na vida. Após subir um ladeira longa (~5km) e chegar ao município de Guamá (sim, Guamá como o meu bairro em Belém).



A estrada tinha como paisagem o mar do Caribe à esquerda e a Serra Maestra à direita. Indescritível. De um lado, incontáveis praias de fazer inveja até a Fernando de Noronha e, do outro, serras cobertas de floresta tropical delineando as nuvens e o horizonte...

Praias sem nome...

Xiiiiiiiiiiiii, furou a câmara traseira. Tudo bem, o descanso da parada para o remendo foi revigorante.

Mas na vida real da pedalada, sob um sol já escaldante, pois se aproximava do meio-dia quando cheguei à Chivirico, descobri que o suposto acampamento ficava em “Las Mulas”, cerca de mais 70km adiante!

Bem, aí complicou...

Pontes do rio que (a ponte) cai!

O pico do sol na ilha, tenho impressão (na pele!), era entre 13h e 14h. Nesse momento adquiri o famoso uniforme de ciclista, devido às marcas de bronzeamento da manga e da bermuda, perfeitamente delineadas pelo sol. Parei em Chivirico para almoçar. Triste vida a de um vegetariano viajante em Cuba, pois fora o pão com queijo (frio...), o iogurte de soja da lanchonete estava estragado. Uma dieta nada recomendável para tanto esforço físico.

O clima parece mais agradável na foto! rsrsrs

Às 15h o sol de frente continuava a toda (só escurece no verão ás 20h), não me segurei e pulei uma cerca às margens da estrada para roubar uma suculenta manga que me chamara. Ali mesmo, à sombra, tirei um cochilo.

Por volta das 17h cheguei em Uvero, local da vitoriosa batalha onde o exército revolucionário atingiu a sua maioridade, bom sinal para continuar pedalando forte, pois “Las Mulas” fica próximo. Posso dizer que 12h depois de sair de Santiago, cheguei ao bendito acampamento. Ufa! Não é todo dia que pedalo 140km (uma perna de Ironman!) com 16kg de carga...

Quase lá...

Após vencer a etapa de explicações sobre a viagem solo de bike, o que ocorre em todo o lugar que se chega nessas condições, a recepcionista do acampamento me vem com uma de que não há vagas! Hahahaha Não era um “acampamento”, só no nome, que em Cuba significa uma espécie de hospedaria com chalés, mais acessível.

Insisti para armar somente a minha rede... nada. Daí comecei a argumentar mais e descobri que havia dois tipos de quartos, uns mais simples e baratos e outros melhores e mais caros, sendo que o último tipo era o único que estrangeiros poderiam hospedar-se. É claro que após essa explicação convenci a recepcionista de hospedar-me em um dos mais simples.

Pois bem, não sou de reclamar de lugar algum, já dormi em tudo que foi canto, mas tenho que dizer: pra que fui ficar naquele quarto? Antes ter dormido em baixo de uma árvore... Era um forno, as paredes, piso, teto, cama, tudo emanava calor acumulado durante a tarde, uma construção irracional, nem o ventilador direto resolvia, a temperatura ficava fácil acima dos 40ºC.

Na janta conheci quatro ingleses que estavam viajando a ilha de bike também. Combinamos de fazer mergulho livre na manhã seguinte.

Durante esse mergulho, a minha suposta câmera à prova d’água (3m) e de choque (1,5m)... entrou água! Isso é uma das piores perdas de equipamentos que podem ocorrer em uma viagem como essa, afinal, onde eu conseguiria uma câmera digital em Cuba? E a que preço? Resposta: não conseguiria.

Última foto da câmera.

A partir desse ponto todas as minhas fotos foram tiradas na câmera de alguém que conheci no caminho, até eu conseguir comprar um tipo de câmera descartável, mas isso é história para os próximos capítulos.

Um comentário:

  1. Poooo Raoni, não vale ... vc vai ter que voltar lá pra tirar novamente !!! :)

    Pacoval

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